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Sexta Dezembro 10 18:32:11 BRST 2004


Competição, Software Livre e Educação
E como o Debian entra nessa história

Por Fábio Telles Rodriguez
(fabio em florestan.org.br)

Sociedade de Competição
Quando Charles Darwin publicou em 1859 “A Origem das Espécies”, 
consolidou-se a idéia da “Seleção Natural”[1]. Além do impacto conhecido 
em toda a biologia, a idéia de que a competição é o caminho natural da 
evolução foi incorporada pela sociedade moderna. A partir de então, a 
lei do mais forte tornou-se algo natural. Afinal os bons, os que evoluem 
são os que conseguem sobreviver em uma sociedade altamente competitiva. 
Aprendemos a competir nos esportes, competir por uma vaga na faculdade, 
um emprego, uma promoção, um lugar melhor ao sol.

Globalização
Quando a Tecnologia de Informação e Comunicação dá seu salto tecnológico 
com o rádio, satélites, fibra ótica e finalmente a Word Wide Web, a 
competição se acirra e novas formas de negócio surgem. Surgem novas 
formas de “utilizar os recursos econômicos escassos”: mão-de-obra, 
tecnologia, matéria-prima e consumidores. Segundo Milton Santos[2], a 
competição no mundo globalizado foi marcada pela presença do capital 
financeiro: fusões de grandes empresas e aumento do capital especulativo 
e desemprego.

GNU e colaboração
Na contra-mão da história surge, em 1984, o manifesto GNU [3]. Uma 
década depois, as primeiras distros começam a se erguer e a “Seleção 
Natural” é finalmente colocada em cheque. O importante para os adeptos 
do Software Livre não é apenas a qualidade ou o preço. Uma nova 
qualidade é colocada na mesa. O paradigma colocado é o da colaboração em 
oposição à competição. Bom é aquele que é criado de forma colaborativa.
Conhecimento livre
O Software Livre não precisa ser o melhor, embora ele seja em diversas 
áreas. Todos sabem que existem diversas lacunas a serem preenchidas. 
Mesmo assim, ele começa a substituir soluções tecnicamente superiores 
criadas no modelo de competição. Surge uma comunidade que descobre o 
prazer em ajudar, ao invés de competir, jogar frescobol ao invés de 
tênis[4]. Então o Software Livre começa a criar um movimento que 
questiona muito mais que licenças e patentes de software. O surgimento 
de novas formas de licenciamento como a Creative Commons[5] criam 
aliados na música, na literatura e em diversos frutos do que começa a 
ser chamado de “Conhecimento Livre”[6]

Debian e GNU
No entanto, desde 1984 muita coisa aconteceu. Dentre os grupos que deram 
continuidade aos ideais GNU, o projeto Debian[7] é certamente um dos 
mais importantes. Ao produzir o sistema GNU/Debian, gastaram muitos 
neurônios discutindo como criar uma distro que fosse algo mais de que 
uma distro excelente tecnicamente. Portanto, o usuário do GNU/Debian que 
não leu, deveria gastar alguns minutos para ler seu contrato social[8]
As táticas do software proprietário
No entanto em meio ao duelo em competição e colaboração, parece que há 
um oceano inteiro para explorar. Mesmo o Mozilla atingindo o triplo de 
usuários em todo o mundo, eles ainda não significam 10% dos navegadores 
utilizados. A discussão sobre patentes e licenças está mais quente do 
que nunca. Neste momento é sempre bom abrir os olhos. Uma preocupação 
clássica são as campanhas de FUD[9], mas quando uma empresa defensora do 
software proprietário começa a fazer pequenas concessões ao Software 
Livre, devemos nos policiar quanto a táticas muito mais perigosas, como 
o “Embrace and Extend”[10]. Aí, pior do que os softwares proprietários 
são os padrões proprietários. Digo isto só para alertar que falar em 
Código Aberto e Sóftware Livre, não é a mesma coisa e partidários desta 
ou daquela corrente possuem grupos maiores por traz que assimilam ou 
rejeitam estas e outras terminologias descendentes.

Debian e Colaboração
É neste momento que o GNU/Debian me cativa. Primeiro por ser uma distro 
não comercial. Depois por ter projetos direcionados para usuários 
finais, como o BR-CDD[11] e para o setor educacional, o Skolelinux[12]. 
No entanto, acho que o fundamental para mim é o modelo de 
desenvolvimento e a forma de agregar novos colaboradores. O projeto 
Debian é um projeto que agrega toda e qualquer pessoa disposta a 
colaborar[13], tem regras claras para seus desenvolvedores[14] e uma 
forma democrática de tomar suas decisões. Neste sentido, o êxito do 
GNU/Debian não pode ser avaliado somente pelo seu êxito técnico, mas 
pelo seu êxito em agregar novos colaboradores.

Educação e difusão
Então, ao utilizar o GNU/Linux, não fiz a opção apenas por uma 
ferramenta, fiz a opção por uma filosofia, e depois descobri que optei 
por uma comunidade. Quem assina a lista Debian-User[15] sabe que 
Software Livre é muito mais do que troca de código-fonte, é troca de 
conhecimento. Nesse ponto, vejo todo o sentido em se discutir qual 
modelo de educação possui mais afinidade com o Software Livre. As 
pessoas que criam o Software Livre são, em primeira instância, aqueles 
que difundem seu uso. O fato é que, muitas vezes, encontro excelentes 
programadores com dificuldade em se comunicar com outras pessoas que não 
sejam também programadores. É óbvio que toda pessoa que utiliza 
computadores conhece as 7 camadas OSI e o que é uma consulta SQL, assim 
como seria um absurdo não saber a diferença entre uma linguagem 
compilada ou interpretada. Neste sentido, temos uma dura realidade pela 
frente. A maioria dos nossos hackers aprendeu informática passando 
incontáveis horas em frente a um monitor, lendo livros e documentações, 
navegando na Internet e trocando figurinhas com outros hackers. Vocês 
conhecem algum curso de informática que trabalhe de forma parecida?

Educação e Conhecimento Livre
O fato é que, quando pensamos em ensinar, muitas vezes, nos reportamos à 
forma como aprendemos em nossas escolas. São as mesmas que nos ensinaram 
a vida toda: a competir, repetir e copiar. Agora, queremos que as 
pessoas que colaborem, critiquem e criem. Não podemos mais depender de 
receitas de bolo para conseguir executar a maioria de nossas tarefas com 
sucesso. É preciso aprender, apreender e aprender a aprender! Não basta 
conhecer todas as combinações de atalhos do VI, EMACS ou OpenOffice.org, 
é preciso entender como os processadores de texto funcionam. Não basta 
conhecer a sintaxe do C, Perl ou PHP, é preciso conhecer algoritmos e 
lógica de programação. Se não mudarmos a forma como ensinamos as pessoas 
a interagirem com o software, as pessoas migrarão sem se importar se ele 
é livre, aberto, proprietário, comercial ou seja lá o que for. O 
Software Livre abre, finalmente, a caixa preta. Não seria bom se as 
pessoas começassem a se questionar como ele funciona, como ele é feito?

Outro barbudo: “Paulo Freire”
Foi assim que descobri que o GNU/Debian tem afinidades com outro 
barbudo. Em 1996, Paulo Freire escreveu seu último livro antes de 
morrer. É um pequeno how-to para educadores. Chama-se “Pedagogia da 
Autonomia, Saberes necessários à prática educativa”[16]. Aqui, Paulo 
Freire mostra claramente a diferença entre treinar e educar. Não se 
trata de depositar toneladas de conhecimentos sobre o cérebro alheio. 
Trata-se de interagir com o conhecimento, desconstruí-lo e reconstruí-lo 
a sua maneira. A tarefa do educador não é a de revelar os segredos e 
mostrar o caminho da verdade e sim permitir que os outros descubram por 
si o caminho das pedras, inclusive construindo novos caminhos.

Em certos aspectos, a “Pedagogia da Autonomia” lembra muito o contrato 
social do Debian, fala que é necessário rejeitar qualquer forma de 
discriminação, ter rigorosidade metódica, consciência do inacabamento, 
etc. Se queremos que o Software Livre perdure, devemos fazer com que as 
pessoas acreditem no seu modelo de desenvolvimento, que acreditem na sua 
importância e suas vantagens para a sociedade. Para isso, não basta mais 
treinar usuários, programadores, administradores de rede etc. Como diz 
Paulo Freire é preciso compreender que a educação é uma forma de 
intervenção no mundo.

Conclusão
Para aqueles que realmente acreditam na importância do Software Livre ou 
até no conhecimento livre, é imprescindível que mudemos nossa postura 
com os demais. Não se trata de uma cruzada contra esta ou aquela empresa 
de software proprietário, trata-se de acreditar numa nova forma de 
utilizar o conhecimento que nos foi transmitido de geração em geração 
por toda a existência da humanidade. O fato é que devemos olhar além do 
teclado e mouse. Colaborar, não é apenas codar, é também ajudar e 
ensinar o próximo. Se não tomarmos alguns cuidados, poderemos ser 
engolidos por uma forma disfarçada de software proprietário, num futuro 
próximo.

[1] http://pt.wikipedia.org/wiki/Charles_Darwin
[2] http://www.fundaj.gov.br/observanordeste/obex02.html
[3] http://www.gnu.org/gnu/manifesto.pt.html
[4] http://www.rubemalves.com.br/tenisfrescobol.htm
[5] http://creativecommons.org
[6] http://www.marketinghacker.com.br
[7] http://www.debian.org
[8] http://www.debian.org/social_contract
[9] http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=274ENO001
[10] http://www.gnu.org/philosophy/gpl-american-way.html
[11] http://cdd.debian-br.org/project
[12] http://www.skolelinux.org/pt_BR/index_html
[13] http://www.debian.org/devel/join/
[14] http://www.debian.org/devel/join/newmaint
[15] http://lists.debian.org/debian-user-portuguese
[16] http://www.pazeterra.com.br/


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